quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Os pombos, além de imundos e imprestáveis, são insensíveis. Não têm compaixão alguma pelas estátuas tristes.
Uma contribuiçao para uma língua portuguesa mais ideal
Bem, é possível que este texto seja somente um pouco maior do que o título, mas trata-se de uma benévola contribuição. Até meus quatorze anos, toda vez que chovia demais, as ruas enchiam e os rios transbordavam, acontecia uma iMundação. Tal foi meu desapontamento quando me certifiquei de que não era o m, mas o n - ao menos não precisei que alguém me corrigisse, o que seria constrangedor. Pois bem, aceitei a tal da iNundação, em prol da moral e dos bons costumes. Mas ando questionando meus saberes em favor de uma coletividade mais harmoniosa e comunicativa e, portanto, a partir de hoje, proponho a volta da iMundação; além de ser sutilmente mais sonora, é mais significativa, visto que, principalmente neste país, quando chove, transbordando ou não, o que impera é a iMundíce.

terça-feira, fevereiro 27, 2007

Seu Palhano
O Seu Palhano foi embora enquanto eu estava no Uruguai. Desde outubro que ele não vinha bem e a última vez que o vi foi durante o natal. Estava deitado, brigando contra o pijama, o qual não queria vestir. Tremia bastante e gritava com os que se opunham à sua revolta contra aquele paletó. Logo pensei que ralharia comigo também, talvez por ter entrado na sala sem ser convidado. Levei um susto quando, ao contrário de tudo que pudesse pensar, um sorriso tomou conta daquele rosto augusto.
- Há quanto tempo!, disse ele.
E a batalha contra a roupa serenou. Ficou sorrindo e me examinando por alguns minutos, arqueou as sobrancelhas um pouco e emendou:
- Estou doente, né?!
Não havia palavras para complementar aquela pergunta-certeza. Ainda pensei em concordar, ou então falar qualquer coisa sobre o privilégio de ter ido tão longe, mas não o fiz. Preferi continuar olhando para ele, sustentando aquele olhar triste e afável. Logo o Seu Palhano, uma pessoa tão abrasiva. Eu sabia que ele estava indo embora e de certa forma torcia para que não se demorasse muito mais, pois ninguém mais alcançava seu raciocínio; deve ser incômodo se entender apenas com as paredes, portas ou roupas. Mas não existe aviso prévio nessas horas e ele partiu à sorrelfa, enquanto eu viajava incomunicável de férias pelo Uruguai. Quando me contaram, o Seu Palhano já estava longe.
Ele nunca foi fácil e me dava apelidos estranhos como "matraca trica" ou "general figueiredo". Também recitava furioso o Orlando do Arisoto - o que não era nada aprazível.
Mas eu gostava dele.
Com ele foi-se embora o que sobrava de minha infância carioca.
Que esteja no céu, não metafisicamente, mas que tenha virado passarinho, dos quais tanto gostava.

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

Casos de pronomes
Os pronomes podem ser bastante agressivos. Eles são perigosos e maltratam mais do que palavrões, às vezes. Também podem ser implacavelmente pérfidos. Veja o que aconteceu com o pai do Aldrovando Cantagalo. Por conta de um lhe mal colocado teve seu destino tristemente desviado; o bilhetinho perfumado para a amada Laurinha dizia um 'amo-lhe', que, interceptado pelo pai da moça, foi corrigido:
Vassuncê mandou este bilhete à Laurinha dizendo que ama-"lhe". Se amasse a ela deveria dizer amo-"te". Dizendo "amo- lhe" declara que ama a uma terceira pessoa, a qual não pode ser senão a Maria do Carmo.
Pois teve que se contentar com a vesga e manca irmã, pressionado pelo pai e coronel. Bem, eis um exemplo com pronomes átonos. Todavia, os demonstrativos também atacam. Não se engane, pois eles podem demonstrar muita raiva. Imagine que alguém se refira a você como uma "dessa" ou um "nisso":
- Ainda bem que me livrei DESSA!
Ou:
- Eu não me meto mais NISSO!
Na primeira frase você é lancetado em várias frentes; o 'dessa' pode ser tantas coisas ruins ao mesmo tempo que não me darei o trabalho de enumerá-las. Na segunda, você é logo convertido ao status de coisa - o que às vezes pode até ser conveniente, ainda que desagradável.
Os pronomes precisam ser levados à sério. Não os provoque, pois os ferimentos podem ser profundos.
(Em tempo: Aldrovando Cantagalo é invenção de Monteiro Lobato. "O colocador de pronomes".)

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

A procura de um medo

Tenho medo de muitas coisas. Sou um medroso calado, pois disfarço muito bem. Outro dia, fazendo um levantamento de todos os medos e fobias que tenho, percebi que nenhum deles me faria realmente sair correndo. Isso me incomodou profundamente, afinal, medo não é para se enfrentar, mas para se borrar. E lá fui eu em busca de algo pra me fazer correr pela minha vida. Não precisei fazer muito esforço, nem ir muito longe. Fiquei imaginando uma sessão de análise, tudo muito sério e doloroso. O analista calado, vestido de analista, escuta sisudo o relato. Depois de meia hora, anuncia:
- Bom, vamos ficar nesse ponto...
Meio sem graça você completa com um "tá bem", mesmo não estando nada bem. Eis que conduzindo você até a porta, seu analista dá alguns passos de moonwalk (ou uma voltinha daquela do insepulto James Brown). Ficaria aterrorizado. D e s a p a r e c e r i a.
Não há Lacan que sustente isso.

quinta-feira, fevereiro 22, 2007













Ser solitário é ótimo, ainda que impossível
Sou partidário da lógica da solidão. Ela é muito particular. Mesmo assim, conheço outras pessoas que a praticam em silêncio. Aliás, todos a praticamos silenciosos. Sabe-se lá quantos somos... Talvez nem seja conveniente saber, pois isso pode trucidar nossa solidãozinha. Essa é uma lógica muito fabulosa, mas que se queria bem real. Percebi que estava instituída quando fui fazer um desses concursos públicos. Com o comprovante, fui até o local designado. Já podia ver o prédio inteiramente vazio, afinal somente eu seria estúpido (ou esperto, isso depende muito) suficiente para fazer aquela prova. É assim: você vai fazer alguma coisa (pegar filas em instituições públicas, fazer viagens para o meio do mato em algum feriado, viajar com o banco do ônibus vazio, fazer provas e concursos, etc) e acredita que ninguém teve a mesma idéia, logo, você estará sozinho. É, portanto, um ideário fadado ao fracasso, pois as filas estarão sempre cheias, o meio do mato estará repleto de pessoas com idéias brilhantes como as suas e as provas e concursos terão inúmeros concorrentes que estarão na merda, assim como você. Mas, não importa. O que vale mesmo são os minutos anteriores à decepção. É um delírio que garante alguns minutos de felicidade, seja porque seremos aprovados com folga no concurso, ou no mínimo porque poderemos pedir nossa declaração de imposto de renda dos últimos cinco anos sem que tenhamos que ouvir a Dona Maria reclamando dos calos no pé, ou do problema que tem nos rins.












A lula da Austrália já era.

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Duas coisas inevitáveis

Sempre que o tempo passa, algumas coisas deixadas de lado começam a ser relevantes. Anos atrás, depois de roubar um gole de cerveja de um parente, descobri que jamais gostaria daquela bebida que todos os adultos tomavam com bastante desenvoltura. O tempo passou um pouco e eu tomei o primeiro pileque. Com cachaça. Sempre ouvia aquela conversa de que a cerveja é uma bebida social com enorme enfado. Preferia me tornar um misantropo a ceder àquele gosto amargo. Hoje, beirando os trinta, eu tomo cerveja. Não pra sociabilizar ou propriamente pra me entorpecer, mas pelo sabor. Verdade número um da vida: tu vais gostar de cerveja, de um jeito ou de outro.
A vida não nos ensina muito mais do que isso, mas há pouco tive um segundo momento epifânico. Como Fátima anunciou pr'aqueles menininhos que já morreram de velho, acredito que serão três as verdades pra mim; já ando desconfiando da terceira. Bem, mas vamos à segunda. O Rei. Ele também é inevitável. Mas como pode alguém gostar de Roberto Carlos? Pior ainda é alguém inventar que ele é rei. Eu via os mais velhos ouvindo aquilo e sentia dor de dente. Balançavam as cabeças, cantarolando bobos "vou segurar no seu cabelo pra não cair do seu galope". Sempre achei aquilo de uma putaria extrema, mas as expressões dos ouvintes sugeriam a imagem de um casal correndo feliz por uma campo de margaridas. E tinha a mãe daquele zagueiro do Vasco, Odvan, que se inspirou na música do Rei ao nomeá-lo: "O divã". Entre outras coisas que me indispunham com o Roberto Carlos, vê-lo manquitolando imaginando sua suposta perna mecânica me incomodava profundamente, talvez por associá-lo ao Wagner Montes, que havia me roubado a Sônia Lima. Enfim, não dava. Mas vieram as decepções e amargores com a vida, e com eles a necessidade de alguma leniência. E o disco do rei me veio ás mãos. "Antes de dormir você procura o meu retrato/ mas na moldura não sou eu quem lhe sorri/ mas você vê o meu sorriso mesmo assim/ e tudo isso vai fazer você lembrar de mim". E lá fui eu de novo, outra vez me rendendo. Que músicas idiotamente eloqüentes! Mistério número dois revelado: tu vais encontrar conforto no rei. Ele é mesmo Rei, apesar de ainda não saber exatamente de quê.
O terceiro ainda vem aí, mas não sei; essa coisa de mistérios apareceu com força lá em Portugal, e eu ando gostando bastante da Amália Rodrigues...

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

Bomb letter blast in the UK ou la logique méne à tout, à condition d´en sortir, mas (...) não saia.
Parece que um motorista indignado anda enviando cartas-bomba para os DNIT´s/ Detran´s ingleses. Seria ótimo adotar essa medida por aqui, mas isso nem vem muito ao caso agora. O meu estranhamento é com a carta-bomba; não a que explode, mas a que se utiliza pra nomear o explosivo. Carta-bomba. Por mais que a idade avance, não consigo crescer pra algumas coisas. Como pode um explosivo ter tanto poder cabendo dentro de um envelope comum? Sim, há mais evolução tecnológica do que sonha a vã filosofia, mas ainda me permito pensar que, para esses fins, um objeto tem que ter algum tamanho. Será que um chip explosivo pode machucar alguém? Um chip ficaria bem escondido num envelopinho. Talvez seja um chip com formato de brinco ou anel pra que alguma funcionária se sinta seduzida ou persuadida à ação de abrir a carta e mandar tudo pelos ares, ou em forma de relicário, pra convencer os devotos de plantão. Mas, de repente, vem a dura realidade sorrir zombeteira. Que idiota. Que lógica mais torta. A carta-bomba não é uma carta, é uma caixa. É feio dizer "caixa-bomba"? Não tem o mesmo apelo de "carta-bomba"? Ou seria a economia linguística - de carta-bomba já se deduz que foi entregue pelo correio? Em inglês dizem letter bomb. Ah sim, carta-bomba. Mas poderia ser letra-bomba - os lacaninanos iriam adorar. Enfim, não adianta. A língua tá aí pra ser obedecida e o Willian Bonner deu a sentença: o que explodiu em Londres foi a CARTA-BOMBA, ainda que ela seja um pacote-bomba. De hoje em diante, nada de ilogismos com explosivos; deixe-os para as crianças.

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Herr Rad

Herr Rad carregava sob o braço o volumoso livro de Thomas Mann contra o qual há muito se digladiava. Precisava passar na farmácia. Como não conseguia manter diálogo que fosse sem gesticular, deixou o livro sobre a bancada, aos olhares curiosos da atendente.

- Por favor, Lorax 2 mg.
- O senhor trouxe a receita?
- Sim, aqui está.
- Nossa, que livro grande! Fala de quê?
- Hhmm...fala de um moço que vai se tratar. Respondeu constrangido.
- Deve ser legal!

E lá se foi mais uma dessas Francisleides buscar o remédio, deixando Herr Rad confuso sobre o enredo daquele livro. Havia resumido Thomas Mann a um moço em tratamento. Deixou a farmácia pensativo. Percebeu aflito que não sabia sobre o que estava lendo. Completou o raciocínio murmurando:

- Mas devia ter dito que era sobre duendes.