quarta-feira, janeiro 31, 2007
segunda-feira, janeiro 29, 2007
Tia Carne
Eu tinha uma tia chamada Carmen. Pra mim era a tia Carne. Eu achava muito esquisito alguém se chamar Carne, mas quando se é criança nossos ouvidos acreditam no que vêem. Provavelmente ela me tratava mal porque sempre a chamava de tia Carne. Devia pensar: lá vem aquele menino estúpido e faminto que toda vez que me vê pede 'tia, carne'. A tia Carne já era velhinha. Ela era carrancuda e ranheta, o que me deixava um pouco amedrontado e atento aos meus atos, para que nenhum deles pudesse incomodá-la. Não adiantava, e eu sempre voltava pra casa com a tromba dela na cabeça. Mas foi com a tia Carne que aconteceu uma dessas coisas estranhas da vida. Foi assim, num estalo. Um dia, quando voltei à sua casa, ela estava leve, com um sorriso terno e sem objeto. Diria mesmo que ela estava zen, em total ascese. Ofereceu-me carinhosamene os docinhos que tanto disfarçava pra comer - quando ela estava por perto. E sorria mais. Nem se incomodou quando a agradeci solenemente:
- Obrigado, tia Carne!
Se fosse hoje, talvez investigasse aquilo mais a fundo. Encontraria pretextos e mais pretextos para chamá-la mais - 'tia Carne, olha isso', 'tia Carne, a senhora viu...'. 'tia C-a-r-n-e!' - pra testar se ela era daquele jeito por causa do nome que acreditava que tinha. Bem, mas a tia Carne continuava ascética. Obviamente que aquilo era esquisito demais. Foi quando, após alguns dias, meu pai me disse que ela tinha morrido. Tudo começou a fazer sentido, a partir dali. Num primeiro instante, quando ele disse 'ela morreu', pensei que a tia Carne já estava morta quando começou a sorrir. Foi uma espécie de raciocínio-susto. Não foi bem isso, pensei um pouco depois. Entretanto, ela estava obviamente diferente pouco antes de morrer. Eu criava todo tipo de teoria pr'aquela brusca mudança de comportamento. Ela era uma mulher muito católica. Será que Jesus Cristo ou qualquer um de seus asseclas puxaram a orelha de minha tia por ela ser tão ranzinza? Ela não ganhou nenhum prêmio em dinheiro ou equivalente que motivasse seu sorriso. Já tentaram derrubar minhas teses com a farmacologia, mas não conseguiram. Mas pra mim, (apesar da dúvida) não tinha mais dúvidas: a proximidade da morte de tia Carne lhe foi avisada por alguma coisa, e ela, contente por não ter que me aturar por muito mais tempo, sentiu-se feliz.
- Obrigado, tia Carne!
Se fosse hoje, talvez investigasse aquilo mais a fundo. Encontraria pretextos e mais pretextos para chamá-la mais - 'tia Carne, olha isso', 'tia Carne, a senhora viu...'. 'tia C-a-r-n-e!' - pra testar se ela era daquele jeito por causa do nome que acreditava que tinha. Bem, mas a tia Carne continuava ascética. Obviamente que aquilo era esquisito demais. Foi quando, após alguns dias, meu pai me disse que ela tinha morrido. Tudo começou a fazer sentido, a partir dali. Num primeiro instante, quando ele disse 'ela morreu', pensei que a tia Carne já estava morta quando começou a sorrir. Foi uma espécie de raciocínio-susto. Não foi bem isso, pensei um pouco depois. Entretanto, ela estava obviamente diferente pouco antes de morrer. Eu criava todo tipo de teoria pr'aquela brusca mudança de comportamento. Ela era uma mulher muito católica. Será que Jesus Cristo ou qualquer um de seus asseclas puxaram a orelha de minha tia por ela ser tão ranzinza? Ela não ganhou nenhum prêmio em dinheiro ou equivalente que motivasse seu sorriso. Já tentaram derrubar minhas teses com a farmacologia, mas não conseguiram. Mas pra mim, (apesar da dúvida) não tinha mais dúvidas: a proximidade da morte de tia Carne lhe foi avisada por alguma coisa, e ela, contente por não ter que me aturar por muito mais tempo, sentiu-se feliz.
sexta-feira, janeiro 26, 2007
O sapateiro frio
Chega uma idade em que variamos a cor das meias. Quando infantes as cores são fartas, inúmeras e excessivas. Vem então a temporada, supostamente longa, das meias brancas, sem qualquer vestígio ou logomarca, reles meias compradas às dúzias. Segue-se a temporada de presentes que acabam por tingir toda nossa indumentária de cores desbotadas, debochadas; começa-se a dar espaço para o preto, cinza, bege, etc. É o tempo das meias mortas. Hoje acordei sem meias. Já faz algum tempo que aqui estou e minhas meias foram digeridas. Chega o período em que os acessórios tornam-se fúteis alimentos.
quinta-feira, janeiro 25, 2007
O estranho destino de meu amigo Otacílio Eustáquio
Que triste destino teve meu amigo Otacílio. Um sujeito delicado, eloqüente, educado e até conservador. Ele bem que andava um pouco perturbado, ultimamente. A última vez que falei com ele, contou-me que adotaria uma nova postura ao dirigir. Tinha voltado recentemente de uma volta pela Inglaterra e, encantado, adotaria o respeito à faixa de segurança para pedestres. Era acima de tudo um respeitador. Que triste fim teve meu amigo Otacílio. Como todos nós, ele também tinha manias e idéias perversas que jamais colocamos em prática. Ele, por exemplo, uma vez quando voltávamos da faculdade em seu carro, confidenciou-me em tom jocoso que seria perversamente divertido acelerar sobre a multidão que atravessava o sinal fechado. Ele gostava bastante de boliche. Que infelicidade a do meu amigo Otacílio. Passou a parar para que os pedestres atravessassem a faixa, mas os carros que vinham atrás buzinavam raivosos. Não se incomodava; antes seus valores. Sentia-se um cidadão pleno, mesmo com a incompreensão dos demais motoristas. Os pedestres sorriam. Que tragédia acometeu meu amigo Otacílio. Alguns pedestres sorriam demais. Também faziam cara de estranhamento com sua gentileza. Os gays sentiam-se cortejados e faziam gracejos ao meu conservador amigo. Os homens também se sentiam cortejados e fechavam o cenho, como se estivessem sendo assediados por um gay. Com as mulheres era semelhante. Meu amigo não era nenhum fisionomista, mas percebia com clareza que elas, embora sorrindo educadamente por seu gesto, demonstravam desconforto com o mesmo, como se aquilo não fosse algo a ser feito ali, no meio da rua. Que infortúnio viveu meu amigo Otacílio. Já não gostava mais de parar, mas o fazia em nome da cidadania. Brasileiros não são dignos de seus próprios direitos, diziam que reclamava. Ele parou, como de costume, para uma mulher atravessar. Uma mulher terrivelmente feia. Uma mulher sedenta por qualquer forma de carinho. Ela sorriu um sorriso constrangedor e parou. Era, enfim, um homem se declarando pra ela. Ele acelerou muito. Dizem até que tirou fumaça dos pneus. Ela voou por uns cem metros e caiu, batendo com o corpo em um poste de iluminação. Otacílio ficou dentro do carro, bufando e sorrindo pra uma estranha felicidade. Os policiais não conseguiam tirá-lo de dentro do veículo. Que triste destino teve meu amigo Otacílio. Foi preso, mas não parava de se machucar, batendo sua cabeça contra a parede da cela. Foi medicado. Estava internado no hospital psiquiátrico, era o que diziam. Andam espalhando por aí que o boliche enlouquece.
terça-feira, janeiro 23, 2007
Nine inch nails?
Nem sei bem o porquê, mas sou bastante incomodado por unhas, em geral. Sou daqueles – se é que existem – que pensam que elas não deveriam existir; os dedos deveriam ser totalmente recobertos de pele mesmo, sem unhas. A princípio pode ser estranho pra quem nunca imaginou, mas não pra mim. Dentre outras vantagens, a econômica para as mulheres e metro-sexuais, e a higiene para alguns homens e mulheres. Para mim, não existiria o pesadelo de uma unha enorme sendo partida inteira – vi isso num filme e ainda me dói -, ou o incômodo com alguns vermelhos cintilantes ou ainda com a pronúncia daquela palavrinha irritante chamada cutícula. Poderíamos realocar nossas vaidades em outro lugar, talvez. Não esqueçamos também de que seríamos poupados de gastar minutos valiosos de nossas vidas cortando as unhas. Cortar unha é sempre um tormento. Quando pequeno, morria de dor e sentia os dedos diferentes depois que minha mãe aparava minhas unhas. Permanecia o resto do dia com as mãos fechadas, que, segundo minha teoria infantil, neutralizava os efeitos nefastos daquele corte. Com o tempo, o transtorno se modificou. Se antes o problema eram as minhas unhas, hoje são as dos outros e o que eles fazem com elas. Já me acostumei com cores diversas e isso nem me chateia tanto mais, mas não venha cortar as unhas na minha frente! Nem me incomodo muito com palitadas no dente, mas cortar unhas, só no banheiro com a luz apagada. Há também aqueles violonistas com uma ou duas unhas zédocaixonescas. Dias desses fui ao guichê de um shopping pagar o bilhete de estacionamento. Eis que percebo que o rapaz dentro do aquário tinha essas uma ou duas unhas enormes. Logo pensei, pra não pensar o pior, que deveria ser um violinista – de grupo de pagode, talvez. Para meu desconforto, meu troco viria em moedas. Num átimo, que parecia conter uns bons minutos, tentei formular uma estratégia para que aquelas unhas horrendas não encostassem em mim, pois com moedas, há aqueles que largam-nas na bancada, que atiram-nas na sua mão, ou aqueles que as depositam delicadamente em sua palma. Minha estratégia tentava conter a última. Fui interrompido no auge de minhas formulações. Acreditei que o funcionário de unha grande deixaria as moedas sobre a bancada. Mas não. Acho que ele foi ungido com certo instinto animal, daquele tipo que diz que quando alguém demonstra medo é que os bichos atacam de verdade. O rapaz deve ter percebido meu desconforto com suas unhas e sua ação foi a do ataque. Notei que não colocaria meu troco na mesa e me preparei para a conchinha. Tentei manter minhas mãos afastadas e fechei os olhos. Mas foi em vão. Elas encostaram em mim. Derrota.

