sexta-feira, abril 13, 2007

Os insetos instrutores

Desde pequeno, Telônio era aficionado por insetos. Não podia encontrar um em seu caminho que o estapeava. Durante sua infância, os besouros eram seus prediletos. Divertia-se muito com sua resistência, pois não se cansavam de serem atirados contra a parede e já levantavam o vôo novamente. Até mesmo as baratas, que a muitos incomoda até mesmo delas se livrar, entravam no jogo do menino, que esmagava sem misericórdia aquelas que encontrava em sua casa. Era uma época de ouro para os insetos, aqueles anos trinta. Porém, apesar de não admitir a preferência, foram as formigas as responsáveis por alterarem por completo sua vida. Ocasionalmente, após o almoço com os pais, Telônio permanecia sentado, esperando a presença das formigas mais afoitas por algum resto de alimento. Apesar de sua preferência pelas de cor vermelha, que eram as mais estúpidas, sentia-se desafiado pela rapidez das pretas, mais diminutas. Aprimorava sua técnica. Quando eram muitas, conseguia matar quatro, cinco formigas, em lugares diferentes da mesa, em menos de um segundo. Contando com a sorte, além das formiguinhas, encontrava também baratas sobre o assoalho, o que o obrigava a burilar ainda mais a sua técnica. Sua coordenação motora era impressionante, e o menino era capaz de exterminar, de forma precisa e ao mesmo tempo, formigas sobre a mesa e baratas sobre o chão. Para garantir um quorum favorável à sua prática, no auge de sua experimentação, o menino começou, sorrateiramente, a emporcalhar sua casa. Logo de manhã, já procurava alguns restos de comida e um pouco de açúcar, que deixava embaixo da mesa das refeições - hábito que quando descoberto pela mãe, rendeu-lhe bons hematomas. Haveria que contar mesmo com a boa vontade da mãe natureza - ou ao menos com o governo: que sua rua se mantivesse sem saneamento.
Mas foi aos dezessete que aquele prazer começou a ceder terreno a um outro, completamente diferente. Telônio antipatizava-se sobretudo com as formigas de cor escura, conhecidas na região como bopbugs, as quais considerava rivais, mas, pela sua rapidez e sabedoria, acabaram se tornando, se que ele percebesse, suas próprias mentoras. Especializara-se naquela espécie, que mais dele exigia. Sua rapidez e precisão eram espantosas e o adolescente, obcecado, perscrutava todos os cantos da casa atrás de suas formigas. Seguiu com seu instinto sanguinário, certa vez, uma fila indiana de formiguinhas pretas ligeiras que fugiam esbaforidas. Pois foi quando elas alcançaram o velho piano de sua mãe – uma relíquia herdada de seu bisavô, que era intocada, já que não havia pelos arredores da última geração qualquer aptidão para a música. Ali, as formiguinhas embaralhavam a visão de Telônio. Entravam, saíam, paravam sobre as teclas escuras, voltavam a se esconder, tudo de maneira frenética, pois certamente já conheciam aquele algoz. O jovem parou por um instante. Olhou. Era uma superfície um pouco diferente das que estava mais acostumado. Mas, sem mais se intimidar, começou seu extermínio. Era tanta a perspicácia, que parecia até que os insetos apareciam em maior número, trocando o medo pelo louvor àquela tamanha habilidade. Catava um a um os bichinhos. Ao mesmo tempo, o som soava (...). Ele catava também, sem saber, notas musicais. O hábito de amassar as baratas, que não estavam ali, movimentava seu pé direito. Telônio criava, a sua revelia, uma música. Uma música dissonante. O som mexeu com sua alma.
Em 1946, Telônio já era um dos expoentes do jazz. Agora era o piano o estapeado, mas ele não se queixava e tampouco morria. Encantava-se.
Seus tapas, seu piano e sua música tornaram-se lenda. O movimento de seu pé, sua marca. Era o início do Bebop.