Embora
Ontem a noite era de lua cheia. Hoje ela partiu. Sabia que iria desaparecer, mas até então podia senti-la. Mas foi diminuindo, ficando muito pequenina. Seu aceno, ao passo que se reduzia diante meus olhos, era ainda obstruído pelas demais pessoas da fila, que ia se avolumando. Passou pelo detector de metais. Até que, enfim, ela sumiu. Já era dia e eu precisava retomar a vida. Mas a lua resistia, brava, e me causava certo espanto. Antes firme, no alto, ela começara a ceder, a cair. Descia lenta, parecendo estar contrariada. Mas eis, que no serpenteio da estrada, ela voltava a se destacar no firmamento. Lutava. E foi assim durante todo o retorno do aeroporto. Ela se manteve no céu, mesmo enfraquecida pela onipresença do sol. Não quis ir embora. Pois pra ela a noite não deveria ter acabado.

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