segunda-feira, maio 21, 2007

Tempo

Há alguns anos, era muito comum viajar para o Rio de Janeiro. Era a minha segunda cidade. Fosse nas férias, de passat bege, fosse durante um final de semana, de Riviera, sempre parávamos em Pouso Alto, no "Pires Alto". Lá, além das tradicionais empadinhas, sempre topava com Janetes e Iolitas, que, com as bocas cheias, gritavam mastigando para as colegas da excursão:
- Sandra (croc croc croc)! Sandra! Vem que tem Exxquibom!
E voltavam pro ônibus lambuzadas de sorvete. Eram trupes de recém entradas na terceira idade indo para São Lourenço, tomar uma aguinha sulfurosa. Além delas, tinha o sujeito que trabalhava como caixa no bar. Não perdia a chance de cortejar alguma mulher que parecia solteira. Sorria e devolvia moedinhas com afagos. Ficava dentro de um aquário cheio de balas. Era chamado por nós de "o tarado das balas".
Mas isso tudo era só a metade do caminho. O destino mesmo era a casa da vovó, que já na adolescência virou a casa dos meus avós.
Com a idade, a viagem foi até ficando mais rápida. O tempo para os mais velhos, no entanto, foi ficando escasso. Mesmo viajando de avião, não cheguei a alcançar minha avó, que partiu sem que pudesse me despedir. Sem ela, o apartamento precisava ser renomeado, para que pudesse carregar aquela dura realidade. Não era mais a casa. Era apartamento mesmo, o apartamento do meu avô, um modo de se dizer um pouco mais formal. Porém, ainda não se faz diferente. O tempo despeja os minutos e com eles despeja mais vidas. Alguns anos depois, meu avô e dono do apartamento também se foi.
Ontem estive lá. Já não havia móveis. Os quadros já não estavam mais pendurados nas paredes. Não havia mais fotos. Senti o cheiro da casa da vovó, que resistia. Mas já não havia mais movimento. Já não havia mais vozes. Nem ecos. Não era mais a casa da vovó. Não era mais a casa de meus avós nem tampouco o apartamento de meu avô.
Sozinho ali, esfregava as mãos, pois fazia um pouco de frio. Caminhava por ele, mas ele agora estava estático. Sem vida.
Tornou-se imóvel.

quinta-feira, maio 10, 2007

Mal Fardados pt. 4


















Pablo é boliviano e assexuado. É estilista e artista plástico também. Deixou a vida de classe média alta de Santa Cruz de La Sierra para trás. Pablo é militante de esquerda. Vive ilegalmente em São Paulo. Adora coca, mas não consegue mais comprar. Trabalha como costureiro. É escravo de um empresário coreano. Admira o ex-líder cocaleiro e atual estadista, Evo Morales. Assustava-se com o antigo ministro dos hidrocarbonetos, Andres Soliz. Odeia argentinos e brasileiros. Idolatra os orientais. Pablo sofre de Síndrome de Estocolmo.

Mal Fardados pt. 3





















Moacir Alberto, 34 anos, cantor romântico e conselheiro tutelar. Viveu intensamento os anos oitenta. Ainda vive. Fã incondicional de Antônio Marcos, Benito di Paula e Whitesnake. Vive com Soraia e tem dois filhos. Deivid é o mais velho. Além dos treze anos, tem muita vergonha do pai. Moacir apresenta-se às quintas à noite no Bar Ponto Chic e aos sábados na Boite Excalibur. É anunciado como Cléber Spark. Soraia já foi sua admiradora, hoje o encara como um homem trabalhador. Moacir, de fato trabalha muito. Faz bicos como Jesus Cristo também. Na última semana santa ganhou um bom dinheiro. Levou a família toda no Beto Carreiro World. Moacir não gosta de futebol e de meninos de rua. Apóia o governo Lula, mas nunca ouviu falar do PAC.

quinta-feira, maio 03, 2007

Embora

Ontem a noite era de lua cheia. Hoje ela partiu. Sabia que iria desaparecer, mas até então podia senti-la. Mas foi diminuindo, ficando muito pequenina. Seu aceno, ao passo que se reduzia diante meus olhos, era ainda obstruído pelas demais pessoas da fila, que ia se avolumando. Passou pelo detector de metais. Até que, enfim, ela sumiu. Já era dia e eu precisava retomar a vida. Mas a lua resistia, brava, e me causava certo espanto. Antes firme, no alto, ela começara a ceder, a cair. Descia lenta, parecendo estar contrariada. Mas eis, que no serpenteio da estrada, ela voltava a se destacar no firmamento. Lutava. E foi assim durante todo o retorno do aeroporto. Ela se manteve no céu, mesmo enfraquecida pela onipresença do sol. Não quis ir embora. Pois pra ela a noite não deveria ter acabado.