Duas coisas inevitáveis
Sempre que o tempo passa, algumas coisas deixadas de lado começam a ser relevantes. Anos atrás, depois de roubar um gole de cerveja de um parente, descobri que jamais gostaria daquela bebida que todos os adultos tomavam com bastante desenvoltura. O tempo passou um pouco e eu tomei o primeiro pileque. Com cachaça. Sempre ouvia aquela conversa de que a cerveja é uma bebida social com enorme enfado. Preferia me tornar um misantropo a ceder àquele gosto amargo. Hoje, beirando os trinta, eu tomo cerveja. Não pra sociabilizar ou propriamente pra me entorpecer, mas pelo sabor. Verdade número um da vida: tu vais gostar de cerveja, de um jeito ou de outro.
A vida não nos ensina muito mais do que isso, mas há pouco tive um segundo momento epifânico. Como Fátima anunciou pr'aqueles menininhos que já morreram de velho, acredito que serão três as verdades pra mim; já ando desconfiando da terceira. Bem, mas vamos à segunda. O Rei. Ele também é inevitável. Mas como pode alguém gostar de Roberto Carlos? Pior ainda é alguém inventar que ele é rei. Eu via os mais velhos ouvindo aquilo e sentia dor de dente. Balançavam as cabeças, cantarolando bobos "vou segurar no seu cabelo pra não cair do seu galope". Sempre achei aquilo de uma putaria extrema, mas as expressões dos ouvintes sugeriam a imagem de um casal correndo feliz por uma campo de margaridas. E tinha a mãe daquele zagueiro do Vasco, Odvan, que se inspirou na música do Rei ao nomeá-lo: "O divã". Entre outras coisas que me indispunham com o Roberto Carlos, vê-lo manquitolando imaginando sua suposta perna mecânica me incomodava profundamente, talvez por associá-lo ao Wagner Montes, que havia me roubado a Sônia Lima. Enfim, não dava. Mas vieram as decepções e amargores com a vida, e com eles a necessidade de alguma leniência. E o disco do rei me veio ás mãos. "Antes de dormir você procura o meu retrato/ mas na moldura não sou eu quem lhe sorri/ mas você vê o meu sorriso mesmo assim/ e tudo isso vai fazer você lembrar de mim". E lá fui eu de novo, outra vez me rendendo. Que músicas idiotamente eloqüentes! Mistério número dois revelado: tu vais encontrar conforto no rei. Ele é mesmo Rei, apesar de ainda não saber exatamente de quê.
O terceiro ainda vem aí, mas não sei; essa coisa de mistérios apareceu com força lá em Portugal, e eu ando gostando bastante da Amália Rodrigues...

2 Comments:
Este comentário foi removido pelo autor.
Coisas inevitaveis e coisas relevantes, pois sim.
Acabei o texto com necessidade compulsiva de Roberto Carlos e saudade do meu avô, que nao perdia o especial de fim de ano.
Enquanto o soulseek nao coopera com o conforto desejado, tô aqui imaginando que bom seria se putaria fosse mais associada à felicidade.
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