Seu Palhano
O Seu Palhano foi embora enquanto eu estava no Uruguai. Desde outubro que ele não vinha bem e a última vez que o vi foi durante o natal. Estava deitado, brigando contra o pijama, o qual não queria vestir. Tremia bastante e gritava com os que se opunham à sua revolta contra aquele paletó. Logo pensei que ralharia comigo também, talvez por ter entrado na sala sem ser convidado. Levei um susto quando, ao contrário de tudo que pudesse pensar, um sorriso tomou conta daquele rosto augusto.
- Há quanto tempo!, disse ele.
E a batalha contra a roupa serenou. Ficou sorrindo e me examinando por alguns minutos, arqueou as sobrancelhas um pouco e emendou:
- Estou doente, né?!
Não havia palavras para complementar aquela pergunta-certeza. Ainda pensei em concordar, ou então falar qualquer coisa sobre o privilégio de ter ido tão longe, mas não o fiz. Preferi continuar olhando para ele, sustentando aquele olhar triste e afável. Logo o Seu Palhano, uma pessoa tão abrasiva. Eu sabia que ele estava indo embora e de certa forma torcia para que não se demorasse muito mais, pois ninguém mais alcançava seu raciocínio; deve ser incômodo se entender apenas com as paredes, portas ou roupas. Mas não existe aviso prévio nessas horas e ele partiu à sorrelfa, enquanto eu viajava incomunicável de férias pelo Uruguai. Quando me contaram, o Seu Palhano já estava longe.
Ele nunca foi fácil e me dava apelidos estranhos como "matraca trica" ou "general figueiredo". Também recitava furioso o Orlando do Arisoto - o que não era nada aprazível.
Mas eu gostava dele.
Com ele foi-se embora o que sobrava de minha infância carioca.
Que esteja no céu, não metafisicamente, mas que tenha virado passarinho, dos quais tanto gostava.

2 Comments:
Olá, Maurício: aqui é Ludmila (ex- Agenda). Gostei muito de seus escritos. Abraços
Obrigado Ludmila! Como andam as coisas em SP? O pessoal do Continental Combo tava querendo falar com vc, mas perdi seu tel...
bjs
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