Cizânia nossa de cada dia
Ás vezes uma palavra esperneia, saltita, boceja, ou até grita na sua frente. Tudo pra chamar a sua atenção. Não há mau-humor ou preguiça que a derrote. Ela vem decidida, agarra pelo colarinho e leva você até o dicionário mais próximo, indignada com a falta de desvelo com que a tratou. Pode ser que ela não tenha despertado o seu interesse por sua própria grafia - não era lá uma v i t u p é r i o, uma p u s i l â n i m e, ou uma l a s c í v i a da vida - essas nobres palavras que quando escritas floreiam e perfumam os textos, ou nos fazem até mesmo nos sentirmos maiores do que somos - ou no mínimo diferentes. Pode ser também o som que ela produz que não seja válido nem mesmo ser imaginado - como é comigo a horripilante (ai) pacotinho - ou pacotchinho, como costumam dizer por aí. Podem ser ainda ignoradas por mera burrice mesmo; seja daquelas que mutilam - as coitadas, salchicha, estrupo, seje, estão todas manetas - ou daquelas que as desqualificam por completo - triste da luxúria que é usada pra ostentação de riqueza (...). Há também quem se esforce por dar às palavras algum conforto e atenção, mas acabam por irritá-las; a inexorável anda abatida e cansada de ser tida como "ineczorável". Pois hoje, irritado, desiludido, macambúzio, foi a cizânia quem me procurou. Por duas vezes ela se meteu no meu caminho. Relutei um pouco, mas acabei cedendo. Tratamo-nos em tom respeitoso e admiti consultar o dicionário.
- Sem me agarrar o colarinho, ao menos hoje, disse.
Acabei fazendo um trato com ela: depois de anos de desentendimentos, tornar-me-ia seu amigo próximo e até mesmo a utilizaria em algum texto.
Ei-lo, querida cizânia. Seja bem-vinda à minha vida.

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