segunda-feira, março 26, 2007

A música e as lágrimas

Dia desses recuperei uma história que andava esquecida. Eu tenho um irmão mais velho. Quando isso acontece, durante a infância, é comum que soframos um pouco mais do que eles. Além da implicância e ciúme do primogênito, costumamos ser muito mimados, o que a longo prazo tende a ter efeitos nefastos. É comum também que não tenhamos nossos pés marcados em algum livro do bebê, tampouco tenhamos um diário pormenorizado, com nosso primeiro arroto e coisas do gênero. Apesar de tudo, gozamos de certo status frente ao irmão que chegou primeiro, e ele luta contra o suposto-injusto descompasso. Pois meu irmão usava de ardis maquiavélicos para me destronar. Não sei como começou, mas ele descobriu que uma certa canção infantil tinha o fabuloso poder de extrair de mim boa quantidade de lágrimas. E lá ia ele, tocá-la na vitrola. Claro que sempre o fazia quando meus pais não estavam. Também, por precaução, ligava a música no toca-discos do salão, que era afastado dos demais cômodos da casa. E lá eu ficava a planger copiosamente. Com aquelas antigas eletrolas, o repeat era meu próprio irmão. Mas ele não sabia e talvez eu não fosse capaz de explicar, mas a música não era o mais triste. Na verdade ela era uma mera trilha sonora para o sofrimento da menininha que estava reunida com o coelhão da capa do disco. Ela era perneta. Bem, era o que eu achava. Anos depois consegui solucionar aquela posição; ela não era perneta, mas estava com sua perninha direita totalmente escondida, num tipo de flexão que até então me era desconhecida. Eu chorava sim. Muito mais em sentimento à falta que a perna devia fazer à menininha. A música era "Tutu Marambá":
Tutu Marambá não venhas mais cá
Que o pai do menino te manda matar
Durma nenem, que a Cuca logo vem
Papai está na roça e Mamãezinha em Belém
Tutu Marambá não venhas mais cá
Que o pai do menino te manda matar
Não me lembrava da letra inteira. Pensando bem, ela é de assustar mesmo.