quinta-feira, março 22, 2007

Inácio

Impressiona-me muito como desgraças podem ser conseqüências de meras banalidades. De guerras por princesas adúlteras e possivelmente feias à mortes estapafúrdias. Pois foi o que aconteceu com Inácio. Era um raro sujeito feliz, que sempre encantava as pessoas, fazendo-as sorrirem gratuitamente. Tinha acabado de completar os vinte e sete anos. Diante de sua morte, o único conforto de toda a família era que, como costumava dizer o morto, muitos de seus ídolos se foram aos vinte e sete, e Inácio, na adolescência, sempre provocava seus pais dizendo que também preferia "burn out than to fade away", e que não passaria dos vinte e sete. Todos riam aflitos, mesmo sabendo ser aquilo uma pueril gaiatice.
Mas Inácio acabou se juntando mesmo aos seus ídolos junkies. Não se foi tão nobremente, morto por overdose. Tampouco se foi por alguma bala perdida, as quais todos já se acostumaram. Tomava seu banho matinal ordinariamente. Costumava, ao desligar o chuveiro, chacoalhar a cabeça para escorrer o excesso de água. Inácio estava mais agitado do que o normal. Movimentou o pescoço bruscamente repetidas vezes. Sem que percebesse, estava próximo demais da parede. Bateu sua cabeça com tanta força que logo vizinhos começaram a interfonar, temendo alguma explosão naquele apartamento. Inácio rodopiou, caiu resvalando no vaso sanitário e não teve nem reflexo para proteger sua cabeça já ensangüentada. Não havia socorro para aquele traumatismo. Foi a empregada que o encontrou. Apesar de assustada, gostou de vê-lo nu. Sorriu.