quinta-feira, março 29, 2007

O artificial real

Reinaldo estava atrasado para o trabalho, ainda sim, mesmo que lhe custasse alguns minutos a mais, deixou para os últimos intantes a procura de algum disco que pudesse escutar no estéreo de seu carro. Cansado de mesmices, perscrutou bastante suas gavetas em busca de algo que estivesse um pouco esquecido ou escondido. Num porta discos quebrado, encontrou coisas que queria. Sorriu reconfortado. Era aquela caixinha que enfim guardava os quatro cds que estavam à sua espera.
Já correndo escada abaixo, guardou o celular no bolso traseiro e nem se deu conta de que o teclado estava destravado. Alcançando a garagem, entrou rapidamente no carro e depositou sua bolsa no chão, próxima ao banco do carona e longe de possíveis prestidigitadores ilegais. Entretanto, não se preocupou com o tempo, ao ligar seu aparelho de som. Silverjews.
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Há muito Maximiliano estava de pé, ainda que não tivesse totalmente desperto. Como morava longe do trabalho, seu dia era mais longo do que o normal, pois precisava acordar bem mais cedo do que a maioria das pessoas. Maximiliano, ao contrário do que supostamente se pode imaginar, não era conhecido como Max, mas sim como Milo. Preferia Max, mas fora contrariado pela ação dos colegas de faculdade. O garoto andava às voltas com uma paixão não correspondida. Ela se chamava Cibele. Mesmo não possuindo quaiquer traços de uma beleza helênica, Cibele era uma morena espadaúda, que atraía muitos daqueles que com ela cruzavam nas ruas. Faceira, divertia-se com o assédio. Sorria e acenava. Mas não era de ninguém, bem como jamais notara a presença de Maximiliano, ainda que fossem vizinhos. Mesmo cabisbaixo por questões afetivas, Milo tivera curtos acessos de euforia com a compra de um novo celular, que além de outros badulaques, vinha até mesmo com bluetooth - ou 'blutufe', como dizia -, embora nem soubesse como aquilo funcionava. Era, enfim, um jovem ensimesmado, mas com algum dote.
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O telefone de Reinaldo estava em festa. Comprimido em seu bolso traseiro enquanto seu dono dirigia, já havia exibido números e números, números e símbolos, letras e números, já havia piscado e feito das maiories diabruras. Reinaldo, sem perceber, apressava-se no trânsito, mas entretia-se ouvindo aquele disco cuidadosamente escolhido pela manhã. Começara então a tocar uma música algo soturna, ainda que leve. Reinaldo, empolgado, aumentou o volume.
"Where's the paper bag that holds the liquor?
Just in case i feel the need to puke.
If we'd known what it'd take to get here
would we have chosen to?"
Foi quando seu celular, que já exibia um número de oito dígitos, durante movimento mais brusco de Reinaldo, confirmou a chamada.
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Do outro lado da cidade, já na fila do banco, Maximiliano atendeu seu telefone. Ninguém na linha, a não ser uma música estranha em outra língua, cantada por uma voz gutural. Milo não estava entendendo, mas não interrompeu a chamada. Quem seria capaz de chamá-lo no meio da manhã para tocar-lhe uma música? Não sabia inglês, mas conhecia algumas palavras: dogue, blutufe, booque, love, dentre algumas outras poucas. Foi quando algo chamou sua atenção. Duas palavrinhas por ele identificadas. Love e Max.
"I Love you to the max
I love you to the max..."
Não sabia quem lhe dirigia aquelas palavras carinhosas, mas começou a suspeitar que era alguma garota que, tímida, tentava demonstrar-se interessada. Logo lhe veio à cabeça aquele nome: CIBELE. Conquanto era impossível naquele momento descobrir a verdade sobre a ligação, Maximiliano permitiu-se acreditar no engano. ERA ELA. Enfim cedera. Cibele descobrira seu número com algum amigo em comum e resolvera se declarar. Milo sentiu-se iluminado. Era como se Deus o passasse à frente na fila dos privilégios. Feliz, somente admitia que, definitivamente, Cibele tinha um péssimo gosto musical. A ligação foi subitamente finalizada e as horas de fila tornaram-se alguns minutos, para aquele então contente nefelibata.
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Depois de uma noite de muito sexo, Cibele dormia ao lado de Karina. Num outro extremo da cidade, Reinaldo, ainda no trânsito, divertia-se ouvindo repetidamente a música que considerava a melhor daquele disco. Chamava-se Punk in the beerlight. Seu refrão era: "I always loved you to the max/ I love you to the max". Não era para Maximiliano, mas aquela música o fez acreditar em feliciadade; uma felicidade real, ainda que embusteira.

2 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Se eu fosse esse Maxmilo, eu tomava um guaraná da amazônia, o legítimo a flor de zíaco... E que espadaúda deve ser essa boa, si belle, bem fornida, para me causar os maiores auto-desenganos!

Marechal Rondônia

11:44 PM  
Blogger Maurício Vasconcelos said...

Marechal, tu não precisas de nada disso.

11:47 AM  

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