segunda-feira, março 26, 2007

Nestor

Nestor era um bichon frisé muito inteligente. Um desses cachorros quase secretários, que por pouco não atendem a telefonemas e anotam recados. Tinha uma vida tranquila, repleta de carinhos e passeios matinais - para estimular a produção de vitamina d. Apesar de ser diminuto e alvo dos mimos mais estúpidos, Nestor tinha uma personalidade austera e séria. Tão sério que quando sua pelagem branca crescia muito, o cão ganhava ares de Karl Marx. Curiosamente, quando isso acontecia, nada o afastava de Cleide, sua companheira de passeios. Cleide era a empregada. Há muitos anos com aquela família, já havia sido suficientemente domesticada e civilizada para que enfim fosse capaz de acompanhar o nobre cachorro Nestor. Mal sabiam todos, mas a empregada, mesmo tendo se acostumado àquilo, odiava o cão e, sobretudo, os passeios matinais. Entretanto, nada podia contra suas atribuições, visto que todos nas redondezas já conheciam bem Nestor e seus hábitos. Cleide e Nestor estavam sempre juntos, do contrário algo de anormal se passava. Certa feita, passeando pela Rua Ceará, um homem sorriu para Cleide, que vaidosa retribuiu, concluindo indubitavelmente que estava sendo cortejada. Mas o homem se aproximou e se agachou. Sorrindo para Nestor, falou para a empregada:
- Mas que cachorrinho curioso. Parece o Karl Marx.
Cleide, desapontada, puxou o cão com força, afinal, os gracejos eram todos para o animal. Em casa, curiosa, perguntou para sua patroa quem era Caio Marx.
- Caio Marx Cleide? Você deve ter escutado errado, querida. É Burle Marx. É o grande arquiteto que construiu a Pampulha.
Nestor, alheio a tudo isso, continuava ostentando sua pelagem marxista.
Bem, mas isso é passado. As dinâmicas devem ter todas se alterado. Cleide deve estar desempregada a esta hora. Sem emprego, mas talvez satisfeita. Pois se livrou do cachorro.
Ontem de manhã, eu atropelei o bichon frisé.

2 Comments:

Blogger Bruno Orsini said...

hahahaha

Sensacional esse texto. As minhas risadas raramente rompem a resistência do ar com a palavra escrita, mas foi o que aconteceu. "Ares de Karl Marx", uma luva...

Abraços

9:16 AM  
Blogger Maurício Vasconcelos said...

Very flattering!

2:12 PM  

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