segunda-feira, janeiro 29, 2007

Tia Carne
Eu tinha uma tia chamada Carmen. Pra mim era a tia Carne. Eu achava muito esquisito alguém se chamar Carne, mas quando se é criança nossos ouvidos acreditam no que vêem. Provavelmente ela me tratava mal porque sempre a chamava de tia Carne. Devia pensar: lá vem aquele menino estúpido e faminto que toda vez que me vê pede 'tia, carne'. A tia Carne já era velhinha. Ela era carrancuda e ranheta, o que me deixava um pouco amedrontado e atento aos meus atos, para que nenhum deles pudesse incomodá-la. Não adiantava, e eu sempre voltava pra casa com a tromba dela na cabeça. Mas foi com a tia Carne que aconteceu uma dessas coisas estranhas da vida. Foi assim, num estalo. Um dia, quando voltei à sua casa, ela estava leve, com um sorriso terno e sem objeto. Diria mesmo que ela estava zen, em total ascese. Ofereceu-me carinhosamene os docinhos que tanto disfarçava pra comer - quando ela estava por perto. E sorria mais. Nem se incomodou quando a agradeci solenemente:
- Obrigado, tia Carne!
Se fosse hoje, talvez investigasse aquilo mais a fundo. Encontraria pretextos e mais pretextos para chamá-la mais - 'tia Carne, olha isso', 'tia Carne, a senhora viu...'. 'tia C-a-r-n-e!' - pra testar se ela era daquele jeito por causa do nome que acreditava que tinha. Bem, mas a tia Carne continuava ascética. Obviamente que aquilo era esquisito demais. Foi quando, após alguns dias, meu pai me disse que ela tinha morrido. Tudo começou a fazer sentido, a partir dali. Num primeiro instante, quando ele disse 'ela morreu', pensei que a tia Carne já estava morta quando começou a sorrir. Foi uma espécie de raciocínio-susto. Não foi bem isso, pensei um pouco depois. Entretanto, ela estava obviamente diferente pouco antes de morrer. Eu criava todo tipo de teoria pr'aquela brusca mudança de comportamento. Ela era uma mulher muito católica. Será que Jesus Cristo ou qualquer um de seus asseclas puxaram a orelha de minha tia por ela ser tão ranzinza? Ela não ganhou nenhum prêmio em dinheiro ou equivalente que motivasse seu sorriso. Já tentaram derrubar minhas teses com a farmacologia, mas não conseguiram. Mas pra mim, (apesar da dúvida) não tinha mais dúvidas: a proximidade da morte de tia Carne lhe foi avisada por alguma coisa, e ela, contente por não ter que me aturar por muito mais tempo, sentiu-se feliz.