quinta-feira, janeiro 25, 2007

O estranho destino de meu amigo Otacílio Eustáquio
Que triste destino teve meu amigo Otacílio. Um sujeito delicado, eloqüente, educado e até conservador. Ele bem que andava um pouco perturbado, ultimamente. A última vez que falei com ele, contou-me que adotaria uma nova postura ao dirigir. Tinha voltado recentemente de uma volta pela Inglaterra e, encantado, adotaria o respeito à faixa de segurança para pedestres. Era acima de tudo um respeitador. Que triste fim teve meu amigo Otacílio. Como todos nós, ele também tinha manias e idéias perversas que jamais colocamos em prática. Ele, por exemplo, uma vez quando voltávamos da faculdade em seu carro, confidenciou-me em tom jocoso que seria perversamente divertido acelerar sobre a multidão que atravessava o sinal fechado. Ele gostava bastante de boliche. Que infelicidade a do meu amigo Otacílio. Passou a parar para que os pedestres atravessassem a faixa, mas os carros que vinham atrás buzinavam raivosos. Não se incomodava; antes seus valores. Sentia-se um cidadão pleno, mesmo com a incompreensão dos demais motoristas. Os pedestres sorriam. Que tragédia acometeu meu amigo Otacílio. Alguns pedestres sorriam demais. Também faziam cara de estranhamento com sua gentileza. Os gays sentiam-se cortejados e faziam gracejos ao meu conservador amigo. Os homens também se sentiam cortejados e fechavam o cenho, como se estivessem sendo assediados por um gay. Com as mulheres era semelhante. Meu amigo não era nenhum fisionomista, mas percebia com clareza que elas, embora sorrindo educadamente por seu gesto, demonstravam desconforto com o mesmo, como se aquilo não fosse algo a ser feito ali, no meio da rua. Que infortúnio viveu meu amigo Otacílio. Já não gostava mais de parar, mas o fazia em nome da cidadania. Brasileiros não são dignos de seus próprios direitos, diziam que reclamava. Ele parou, como de costume, para uma mulher atravessar. Uma mulher terrivelmente feia. Uma mulher sedenta por qualquer forma de carinho. Ela sorriu um sorriso constrangedor e parou. Era, enfim, um homem se declarando pra ela. Ele acelerou muito. Dizem até que tirou fumaça dos pneus. Ela voou por uns cem metros e caiu, batendo com o corpo em um poste de iluminação. Otacílio ficou dentro do carro, bufando e sorrindo pra uma estranha felicidade. Os policiais não conseguiam tirá-lo de dentro do veículo. Que triste destino teve meu amigo Otacílio. Foi preso, mas não parava de se machucar, batendo sua cabeça contra a parede da cela. Foi medicado. Estava internado no hospital psiquiátrico, era o que diziam. Andam espalhando por aí que o boliche enlouquece.

2 Comments:

Blogger Chantecler Duvallier said...

Pratinha, esse Otacílio não é aquele primo da Lourdes?? Ah, Lourdes.... Que seios!!

1:12 PM  
Blogger Maurício Vasconcelos said...

Não não, aquele era o Alcides. Ele também ficou lélé.

3:07 PM  

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